Flamengo veta expressão ‘Festa na favela’ de suas redes sociais: ‘É associado à violência’

Quando o Flamengo vence um título, a torcida conhece o repertório de cor: pra além do “é campeão”, a arquibancada sabe que, na lista de canções eternizadas na ponta da língua, está o grito de “festa na favela”. A expressão de orgulho rubro-negro, porém, está vetada das redes sociais do clube.

A justificativa, apurada pelo EXTRA, é que favela é “algo associado à violência”, conforme expresso no grupo de WhatsApp do funcionários que controlam as contas de redes sociais do clube.

A decisão de não usar o termo é da X-Tudo, empresa contratada pela vice-presidência de comunicação do Flamengo. A explicação para proibir o termo, segundo escreveu Diogo Rocha, gerente da conta e funcionário da empresa, é que favela “é algo associado à violência na cidade em que moramos”. O profissional não acredita que o fato de a arquibancada adotar a expressão seja o suficiente para que o clube a use em suas contas oficiais: “o que a torcida fala é o que a torcida fala. Podemos usar algumas coisas, mas não é porque a torcida fala que devemos falar”.

A explicação foi dada em uma conversa no dia 3 de fevereiro, logo que a recomendação foi implantada, no grupo de Whatsapp “Redes Sociais CRF”. Participam do grupo empregados da comunicação do Flamengo junto com Diogo. É por lá que ele comunica as decisões sobre as redes sociais rubro-negras, e a ferramenta serve como grupo operacional para que os funcionários do clube toquem as postagens nas contas oficiais no Twitter, Facebook e Instagram. Toda a explicação veio da pergunta de outro participante do grupo, que questionou: “mas favela não é família? É a essência do Flamengo”. Depois de associar a favela à violência, Diogo seguiu: “o Flamengo está em todas as classes sociais. É o momento em que as diferenças somem e todos se tornam uma coisa só. Uma paixão que nos une. Temos que evitar qualquer tipo de segmentação”.

Segundo fontes ouvidas pela reportagem, a decisão causou revolta em alguns funcionários. Na conversa em que o EXTRA teve acesso, Diogo também justificou a medida dizendo que um estudo realizado recentemente mostrou que apenas 18% dos seguidores do Flamengo no Facebook são moradores do Rio de Janeiro. Para ele, a comunicação “deve trabalhar cada vez mais com isso em mente. Sem esquecer que o Flamengo está em todos os lugares”.

Diogo é quem explica no grupo o porquê do não uso do termo “favela”, mas não é possível saber de quem é a decisão. O diretor geral da empresa é Marcelo Gorodicht, que em contato com a reportagem às 20h desta sexta, confirmou que há uma orientação atual para que o termo não seja usado, mas não quis chamar a medida de “veto”. “Consideramos que o Flamengo é favela, asfalto, mata, tudo. Então não estamos usando. Quem sabe até se acharmos pertinente, podemos usar. Mas veto não existe”, disse o diretor (confira no final da matéria o posicionamento da empresa na íntegra).

Procurado, o Flamengo respondeu às 20h30 também da sexta-feira, de forma truculenta, usando palavrões, através do diretor de comunicação Bernardo Monteiro. Negou a proibição, apesar da empresa terceirizada confirmar que o termo não está sendo usado.

A última “festa na favela” online

A última vez que o termo “festa na favela” foi usado nas redes sociais do Flamengo foi no dia 10 de junho de 2018, na vitória sobre o Paraná, no Maracanã. A publicação, feita no Twitter, foi um vídeo dos torcedores cantando a música com a expressão, e rendeu mais de 7.400 compartilhamentos e 12.500 curtidas. Na época, outra prestadora de serviços estava à frente do clube, ainda sob a presidência de Eduardo Bandeira de Mello. A X-Tudo só passou a gerenciar as contas rubro-negras em 2019, depois da posse de Rodolfo Landim.

Na gestão atual, a proibição não chegou, ao menos aparentemente, aos atletas. No dia 6 de abril, o atacante Gabigol comemorou no Twitter o empate e a classificação contra o Fluminense na Taça Rio. ‘Festa na favela. Tamo na decisão’, escreveu.

E a postagem não veio via Gabigol, que marcou um gol naquele dia, por acaso. O atacante foi criado no Montanhão, comunidade de São Bernardo do Campo-SP, sua cidade natal. Além dele, Vitinho é outro atacante do elenco que nasceu e foi criado em uma favela, e no caso, em uma comunidade do Rio de Janeiro, lugar citada pelo gerente da empresa. O camisa 11 veio do Complexo do Alemão, e suas origens foram exaltadas na época de sua contratação, justamente nas redes sociais do clube, que o apresentaram como um menino de comunidade que realiza o sonho de jogar no Flamengo. Como chegou em 2018, as ações também foram realizadas pela gestão anterior.

Com relação a ídolos, não faltam nomes na história do Flamengo vindos de favelas: Adriano (Vila Cruzeiro), Romário (Jacarezinho), Adílio (Cruzada), Júlio César e Jayme de Almeida (Favela do Pinto) são alguns exemplos. Nesta sexta, a convite de Nego do Borel, Éverton Ribeiro e Diego Alves foram até o Morro do Borel entregar chocolates de Páscoa para as crianças. O clube não teve participação na ação.

“É um absurdo negar esse patrimônio”, diz geógrafo

Jorge Barbosa, diretor da ONG Observatório das Favelas, classifica a associação entre violência e favela como algo extremamente “infeliz”, e que reforça um estereótipo perigoso.

– A favela é marcada pela violência urbana que atinge toda a cidade. Está mais exposta do que outros lugares, seja pela presença do tráfico, seja pela ação violenta da polícia. Mas os moradores não são violentos. Eles são os mais atingidos. As pessoas que moram lá trabalham, cantam, dançam, vivem com muita alegria e dificuldades. Mas não são violentas – diz o geógrafo, que ainda lamenta que isso venha especificamente do Flamengo:

– A imagem da torcida sempre foi associada à de uma torcida popular. Diversas classes sociais são ali representadas. Sobretudo os moradores de favela. É um absurdo negar esse patrimônio. Estão reproduzindo um senso comum que só cria esses estigmas.

Não é difícil perceber que a violência no Rio de Janeiro vai muito além da praticada em favelas e comunidades. Roubos, por exemplo, são muito mais comuns em outras áreas. Segundo dados do site “Onde fui roubado”, o Centro da cidade é o local com mais ocorrências do tipo, seguido por Barra da Tijuca, Tijuca, Copacabana e Botafogo.

Homicídios são mais comuns em favelas pela grande densidade populacional e quantidade de armas de fogo, apontam especialistas em segurança pública. Segundo as conclusões de um levantamento da ONG “Redes da Maré”, no entanto, isso acontece porque “as favelas são estigmatizadas como espaços violentos. Isso, sem dúvida, contribui para que as políticas públicas tenham como pressuposto uma visão estereotipada e preconceituosa sobre essas regiões, legitimando ações extremamente violentas”. Segundo Jorge Barbosa, é exatamente o que a decisão do Flamengo faz:

– A gente estranha essa decisão, mas não se surpreende. Pois, por trás, tem a marca forte do racismo. Embora saibamos que a maioria da torcida é negra. Vejo tudo isso como parte de um processo de mudança das arquibancadas. A torcida do Flamengo era marcantemente negra e hoje está se tornando branca. Porque os preços mudaram, porque o futebol está deixando de ser popular. Além disso, é sempre importante contextualizar essa decisão dentro desse cenário muito conservador em que a nossa sociedade está inserida atualmente, onde o outro, o diferente, deve ser afastado. E, num determinado limite, exterminado.

Confira o posicionamento completo de Marcelo Gorodicht, diretor geral da X-Tudo.

“Desde que assumimos a conta, apesar de respeitar e enxergar muitas qualidades na linha de comunicação adotada até o final do ano passado, houveram (sic) algumas alterações por nós propostas e implementadas. Uma delas foi a mudança do slogan ‘Isso aqui é Flamengo’ por ‘A Maior Torcida, o Maior do Mundo’ que vem assinando nossas peças. Essa alteração é porque reconhecemos ser a nossa torcida o nosso maior patrimônio e é por causa dela que podemos nos considerar os maiores do mundo. A nossa torcida é tão grande e tão plural que abrange tudo e todos, em todas as camadas sociais e lugares do Brasil, quiçá do mundo. Logo, quando o Flamengo vence ou é campeão, como esperamos que vá acontecer neste domingo, a festa acontece em todos os lugares, em todos os recantos do Rio de Janeiro e do Brasil. Do morro ao asfalto, da Zona Norte a Zona Sul, do Leme ao Pontal como diria o saudoso Tim Maia, do Oiapoque ao Chuí. Porque como escrevemos em um post veiculado nas redes recentemente, somos rubro negros, rubro indígenas, rubro brancos, rubro qualquer coisa. Por conta disso, trabalhamos outras hashtags que exaltem o Flamengo e o “rubronegrismo” indistintamente. E os resultados são os melhores possíveis com o nosso crescimento sensível em todas as redes. Não existe veto algum. Qualquer um pode usar esse termo e eu não tenho nada contra. Apenas consideramos que o Flamengo é favela, asfalto, mata, tudo. Então não estamos usando (a expressão “festa na favela”). Quem sabe até se acharmos pertinente, podemos usar. Mas veto não existe, de jeito nenhum. Aliás desconheço veto a qualquer termo quando se trata de comunicação publicitária”

20/04/2019

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